Arquimedes Viegas Vale

CADEIRA 20

PATRONO

José Pereira da Graça Aranha

Cadeira 20

Monólogo Do Velho

ARQUIMEDES VALE (ALL CADEIRA 20)

Que cabeça…já ia esquecendo a bengala que me segura nessas calçadas tão irregulares, com pedras soltas, buracos e sujeira. Ninguém pensa que pernas fracas de um velho pode passar por elas.

Não gosto da franqueza do termo: “velho”.  Parece uma coisa inservível, quebrada, enferrujada. Prefiro uma palavra mais rebuscada sem ser uma mentira. Assim como “idoso”, “longevo”,  “ancião”. Esta, então, dá ideia  de sabedoria. Não gosto também de “senil” que  é decrepitude pura!

Não preciso de casaco nem de cachecol porque hoje o dia está radiante, mas tenho certeza que alguém vem me dizer:

– O tempo pode mudar! Agasalhe-se!

O tempo muda para todo mundo, mas só a gente que tem que estar prevenido!

Há, quantas vezes banhava na chuva, ficava  com um shortinho molhado numa “pelada” que continuava mesmo depois da chuva. Quantas transgressões, na comida, bebida e nos riscos como menino, rapaz e adulto. E tudo deu certo porque ainda estou aqui. Não tinha essas preocupações  de pegar pneumonia, assanhar o reumatismo, elevar colesterol e tantas punições para o corpo.

Eu ainda tenho mente funcionante, mas todo mundo fica pensando por mim.

– Não esqueça do remédio da pressão!

– Cuidado para não escorregar no banheiro!

– Tome bastante líquido para não desidratar!

Por falar nisso, o castigo do homem está na urina, mais precisamente na próstata. Bomba-tormento que a natureza colocou no caminho dos prazeres da reprodução com  um aviso sinistro :“aqui se faz, aqui se paga”.

– Onde mesmo que eu ia?  Ah!… sim, na farmácia.

Esse é o único passeio que faço sozinho, pois estou sempre acompanhado quando vou ao banco  pegar os trocados da aposentadoria, ou ao consultório do chato do  geriatra para fazerem queixa das minhas “teimosias”, como chamam. Teimosias para eles, resquícios de vida pra mim, pois eu não tenho mais nada a perder, Já perdi tudo! Se venho num processo lento e inexorável de obstrução vascular, atrofia neuronal, degeneração óssea e muscular. São os projetos da natureza executados pela civilização  com a  finitude da matéria.

Aí, então, não querem me deixar comer um torresminho, um  mocotó, ou uma linguiça no churrasco. Tenho certeza que a minha contrariedade me prejudica, em dose muito maior do que a inocência desses sabores,  hoje, ditos malditos.

E um copo de cerveja? Ou de whisky?

Deus me livre. É uma agressão ao bom senso e ao comportamento dietético de um “velho”.

Ah, vinho sim. Mas só um pouquinho, que a ciência diz que é bom para coração.

Ora bolas, bom para coração é alegria, é satisfação, é gosto.

Fico falando essas coisas, mas entendo o choque entre o tempo vivido e o tempo presente. O vivido fica querendo me levar para lá e o presente me traz para esta realidade junto com os conviventes, que me querem preservar, como se preserva uma relíquia… no museu! Que não deixa de ser com cuidados, carinho e … posse.

-O que é mesmo que eu vou fazer?

-Ah. a farmácia, porque a vida é uma doença que fatalmente nos levará à morte.

 

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